Meu Perfil
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, TATUAPE, Mulher, de 15 a 19 anos



Histórico


Votação
 Dê uma nota para meu blog


Outros sites
 Meu Flog
 Blog da Mary (Acasos)
 Intra muros, inter absentes. (Mariana Teresa)


 
O Armário da Janela


Novo site

O Armário migrou para: http://oarmariodajanela.com

Visitem!



Escrito por Aline Prado às 13h36
[] [envie esta mensagem] [ ]



Alegria

Você vive para viver a alegria. Toda a pulsação se une em seu corpo como um esforço, como todos os esforços – da sedução aos esforços musculares de se levantar, de comer e andar. Sua máquina corporal se concentra em reproduzir seu objetivo cerebral de se fazer sorrir. Estou falando de quilojoules em pilhas, gastos em marcha para a alegria.

Depois de todas as batalhas, seu exército venceu a guerra e caminhou até a desejada terra. Os portões escancarados deixaram que os soldados entrassem sem maiores obstáculos. Você chegou em Alegria. O GPS grita repetidas vezes até que você consiga estender a mão para desligar a Karin. Você chegou. Você chegou ao seu destino.

O exército chegou acéfalo em Alegria. Os generais mais velhos, há milênios empreendidos em chegar na cidadezinha, não entenderam. Já repetimos a mensagem, enviamos sinais de fumaça. Já pusemos o telefone na voz automatizada de Karin. Não houve como. A bagagem ancestral e, quem sabe Jung?, de inconsciente coletivo dos generais engessados no eterno não deixa que entendam: este exército hasteou bandeira na cidade de Alegria.

Abandonados, os soldados vagam pelas ruas a procura de ocupações substitutas às instruções que deveriam ter recebido de seus comandantes. Terra. Há tanta terra seca em Alegria que o azul se escondeu, deixando ao vermelho ferrugem sua função original de ser Céu.

Os soldados procuram por nativos que lhes dêem boas ou más vindas. Sem respostas. Em Alegria, não havia ninguém. As casas de comércio e bares margeiam as ruinhas de terra sem um só vendedor. Copos a espera, produtos nas prateleiras. Tudo limpo e pronto ao consumo. Entre e pegue o que quiser. Vasculhe os balcões proibidos e o estoque. Aqui nada se paga.

Uma música ambiente, dessas de caixinha de música, toca em toda cidade sem que exista uma só caixa de som. Cansados, os meninos soldados se sentam à beira de uma ponte e se banham com seus cantis. Suas bocas sorriem plenas em terem chegado. E não importa mais nada. Nós sabemos que chegamos. Sem comandos cientes, sem generais. Aqui estamos e sorrir agora é tão instintivo quanto a fome, quanto excretas e sono. Sorrir, agora, é respirar.

Os dias vão passando e um dos soldados teme a dúvida dos generais. Quem sabe chegamos numa armadilha. Uma cidade espelho da Alegria que nos esteja prendendo. Morto. O corpo do soldado mais velho ficou sob a ponte do encontro geral. Na segunda noite, descobriram as casas de bebidas. Pílulas em potes de vidro, garrafas de todas as cores e tamanhos, poderes enlatados. Sirvam-se, meninos.

Serviram-se. No vidro central, uma placa de ferro dizia: Alegra. Pílulas brancas e grandes com uma chave gravada em alto-relevo. O exercito todo achou por bem provar primeiro do tradicional. E a noite só se contou na manhã seguinte.

Milhões de bolhinhas transparentes percorriam a corrente sanguínea de todos os homens. Taquicardia, falta de ar. Eu não respiro bem. Nenhum deles. O sono vivo no corpo. Deite. Tente deitar. Suor dono das testas. Respire.

Os generais receberam um alerta e assistiam os sopros caídos por teletelas pequenas: uma droga local. Corre pelo sangue, acelera o coração. E só funciona na CNTP local. Se ficarem na cidade, sem cura. Temos de tirá-los de lá. Os desertores, senhor? De quê? Desertores da busca. Judeus da alegria. Os 20 velhos homens conseguiram levar 100 soldados à cidade vizinha.

Com mais ar e cientes do redomínio, alguns dos soldados conseguiram se reunir nos dormitórios de Lacuna. O problema de Alegria é que ela foi projetada sem casas, sem passa-noite. Não há camas. Fiquemos aqui. Estamos a 15 minutos de Alegria. Talvez não agüentemos os efeitos de Alegra por muito tempo contínuo, mas, conseguimos passar as noites por lá acordados. O comando? Eu posso convencê-lo. Até que um dia eles queiram conhecer a cidade.

E todas as noites o céu dos solados é azul até que se chegue ao vermelho ferrugem. Até que não se possa respirar.

 



Escrito por Aline Prado às 14h55
[] [envie esta mensagem] [ ]



Pequeno Alô

Pinte o rosto. Amanheça leve e pinte o rosto como quem reveste a alma.

Era assim, comer a carne toda. Esquecer a pimenta. Provar e deixar a língua saber o sabor.

Deixe a língua saber o sabor.

Se eu der de frente com as minhas regras, com as minhas paredes, vou lavar uma a uma e deixar minha língua saber o sabor.

Conhece? Levanta, pinte o rosto pra saber qual é a de hoje. Pop up. Arregale os olhos pintados de branco e seja um índio querendo mais. Selvagem sorrisos e cabelos girando. Cada fio em seu compasso.

As papilas me pedem um pedaço a mais e novo. Vamos fugir do óbvio e encontrar o natural no meio do labirinto. Se encontrar, junte as mãos às dele. Porque, no fundo. O natural já viveu no seu profundo. O natural saiu de pipoca pela sua boca e se parou ali na sua frente.

O que é seu, lhe sai pelo ventre e lhe aparece ali – fruto. Agora você pode correr.

Um prego lhe furou os pés. Se acalma, ok? Vamos tirar. Saque os pregos dos seus pés pra voltar a correr. 



Escrito por Aline Prado às 12h05
[] [envie esta mensagem] [ ]



O Relógio

 

Que o sono me presenteie a vontade de dormir. Eu não gosto de fechar os olhos quando não posso ver acontecimentos cintilantes em volta de mim. Quando meu dia não rendeu pó de pirlimpimpim. Eu gosto de abraçar a boa história do dia e dormir de perna sobreposta em um travesseiro que possa ser a história toda.

Quando os quês que me passaram não caíram bem, não tem de quê, Insônia: toda sua.

Já pensaram em quantos mil pensamentos temos na hora fim do dia? Na hora em que a orelha encosta no travesseiro até a cabeça se achar e fazer ali um ninho de poder passar a noite? Impossível pensar.

Milhões de pensamentos dinamitados em ser absolutos segredos. Não me venha com carneiros. Eu chamo todas as minhas pessoas a me contar histórias tranqüilas. Quando consigo e o sonho começa passar em pré-estréia – o estágio em que você ainda não dorme, mas já assisti à cena – Ei, olá! O que você está fazendo aqui? Ah! Inconsciente! Malandrinho.

Eu converso com ele. Por horas. Treinei ficar ali em pré-estréia. Engano minha cabeça até ela acreditar que estou dormindo e me conheço melhor do que nunca. E se...? E se eu pudesse passear lá por dentro? Encontrar todos os monstros e máscaras, encontrar o planeta quadrado e a água caindo feito cascata de shopping. Baleias, golfinhos, tubarões: tudo caindo feito chuva de gota gorda.

Quero os cogumelos e as etcs. Se não for ingresso pra sala VIP, mas pra festa dos que desistiram da entrada: topo. Quero saber o que eu quero agora. Que me reserva esse meu próprio não saber. Porque as brechas por onde vejo os trailers me dizem o tempo todo que até minhas mais sinceras certezas estão, em linhas tortas, a me rodopiar por uma floresta anoitecida de gargalhadas ambientes.

Eu quero sorrir de verdade. Eu quero mergulhar na minha festa VIP e tirar máscara por máscara. Eu quero saber do que eu tenho medo e o que eu desejo. De tanto eu: Talvez me queira e a nave só me leve a rodar em castelos fictícios, olhar pela janela, brincar com bonecas e me acreditar mãe delas. Eu rio tanto de mim escondida que devo me fazer andar em círculos.

E esse último clarão? Meteoros, vulcões. A floresta acesa em chamas. E nada queima. O fogo chega perto, tão perto que a própria luz esquentou meus cabelos, meu corpo todo – fez uma lágrima de calor dançar pela minha testa. Nariz. Boca. Queixo. Mas o fogo. Esse fogo dos meteoros não havia de queimar? Não havia de me fazer correr  por ataduras? Por Andolba?

E os coelhos? Os coelhos pararam. Me convidam, dançam. Eles estão sentados atrás das chamas. Mas. Mas eles não têm relógios. Não entendo os coelhos sem relógios.

O coelho maior se levanta e entra por algum lugar da floresta que eu já devo ter vindo mas não lembro. Eu já devo ter andado por aqui porque o chão veste algumas migalhas. Migalhas estranhas essas. Senhor Coelho, o senhor já viu estas migalhas? Não são de pão. E as latas? Mas eu não me lembro de nada. As latas e migalhas são novas, minha cara. Venha por aqui. Estou indo senhor Coelho, estou indo. Mas na história que me contaram os Coelhos corriam.

Talvez eu tenha que correr para trás! Senhor Coelho? Senhor Coelho? Pra onde vamos? Pra onde fomos?

Seguro minhas pernas e espero. Se o vir de novo, lhe dou um relógio grande. Grande e, desta vez, vermelho.  

 



Escrito por Aline Prado às 04h46
[] [envie esta mensagem] [ ]



Chuva

 

Estou sentada na agência. Um frio do cão – o ar condicionado tem o poder de gelar o osso por dentro da pele e deixar a pele confusa, sem saber se está ou não com frio. É um frio de latência.

A janela não consegue mostrar nada mais do que a chuva – as gotas surram o vidro que resiste ali, cristalino e aparentemente tão frágil. Sou só eu que tenho essa impressão do vidro? Eu tenho aflição das casas de vidro. Podem me vir com blindagens mega super duper power. I don’t care. É vidro, é transparente e dá pra ver tudo.

Talvez essa seja minha aflição. Sala, quarto, cozinha e todo mundo vê. O pior é que você vê todo mundo. Tudo em torno da sua casa. Eu perderia o sono deitada na cama olhando para as paredes, procurando pelo medo.  Por que é que a gente tem essa procura pelo que nos dá medo? É como se nos obrigássemos a não estarmos felizes.

Está tudo bem. Não há ninguém fora da sua casa de vidro. São só paredes bonitas. O que é que você vai procurar lá fora? Uma menina vendendo doces? Não. Você procura um bandido encapuzado olhando pra você como em qualquer filme de quinta. Não me venha com probabilidades. Fosse essa a maior probabilidade e não haveria ninguém aqui. Nem eu escrevendo isso, nem você aí no futuro lendo.

Não, não. Isso não é o provável. Isso é o seu enorme medo de que arranquem sua felicidade sem te avisar. O medo de ser enganado pela alegria. Então você arranca sua alegria primeiro, se veste de medo e monta vigilância na sua vida inteira. Assim você não vai conseguir ter uma casinha de vidro! Ou quem sabe enjanelar seu concreto. Você vai ter de ser cego, surdo e mudo e deixar que o pânico tome conta de você – imerso.

Mas em todo tempo que você morou na casa de vidro o que você viu de bom? Você abre o Google e coloca: bandido. Se tiver flor ou um gato sorrindo ele não vai encontrar. Ele pode te dar um resultado torto no qual tem a palavra bandido sem que haja nenhum ladrãozinho lá fora. Mas você vai ter medo. Você está com medo da sua sombra no vidro. 

Está chovendo pacas. Os prédios se perderam nas gotas e perderam as pessoas procurando as janelas.

Boas gotas de verão! 



Escrito por Aline Prado às 18h00
[] [envie esta mensagem] [ ]



Terra Ataca

“Existe uma linha muito tênue entre a loucura e a sanidade. Se você conseguir atravessar e voltar, você ganha um vale acesso. É muito fácil retornar. A qualquer hora. Pra sempre. “

 

Agora querem colonizar Marte. Missões que começarão em 2030, de duas em duas pessoas. Até que Marte seja a Terra. E que a Terra possa explodir.

Os astronautas olharam pra dentro do planeta e pensaram: é, não vai dar. A gente precisa do plano B. Logo ali – Marte.

Então, terráqueos, podem ir se despedindo. Logo, logo, ficará na Terra, nesta terra, só a ralé planetária. Coisa boa não fica aqui não. Vai de primeira classe. Ala A! É o seguinte: vai ter guerra pra tudo quanto é lado. Novas lideranças, novos reis vão surgir. E quem será, será!

Até mesmo meu Armário será agora apenas uma das janelas. Com vista para os fundos. Miss Mundo ou miss Universo? Agora é diferente. Voltarão os homens a sua terra natal? E nós mulheres? Teremos que esperar por mais uns séculos até que Vênus seja a próxima parada. O título da peça agora será: Os homens são de Marte e foi pra lá que eu fui.

Depois de reunir todos os clichês na minha cabeça, eu pensei – e se eu ganhasse um ingresso? E se eu pudesse ir pra Marte? Pra sempre? Eu enfim iria. Começar do zero, do primitivo. Ver o primitivo e ser a mocinha de todos os filmes da Terra até o fim dos tempos. Puta que pariu abrem-se as vagas para a nova Eva. E ao invés daquela folhinha de uva ridícula, eu instituiria o biquíni dourado da princesa Léia – à la Friends. Poder ver o mundo e todos os meus problemas tão pequenos que deixariam de existir. Mais: deixariam de um dia ter existido. Uma pessoa que não habite mais este mundo e que não possa voltar, uma pessoa que não esteja ao alcance de um avião é ainda viva? É como se um ser humano ficasse eternamente vivo, preso ao passado dos seus parentes e amigos. Os marcianos serão seres que não vão ser. Não serão nada. Vivos, mortos, desaparecidos. Não serão mais filhos, nem irmãos. Não serão amigos. Não cabe no português o que eles serão, nem na revolta de seus parentes.

Pela primeira vez, alguém que se foi para sempre estará realmente no céu. E, provavelmente, olhando por nós. Será este o Céu? Será o Céu uma construção humana? Ah! Era isso? Tudo uma previsão. Onde será então o inferno? Talvez Zion seja o inferno. E talvez a Terra, na era marciana, se resuma a Zion. E é isso? Será a história humana uma confirmação da ficção constante?

As ditaduras modernas terão exílio interplanetário? O “para sempre” agora é “para Marte”? Marte e Morte vão ser irmãos? O cérebro humano vai ter que, mais uma vez, se remexer para que outro planeta caiba em sua compreensão terráquea. O restante gigante e não usado de nosso cérebro deve ser para compreensões interplanetárias.

Terráqueos, uma boa noite a todos vocês.

 



Escrito por Aline Prado às 01h02
[] [envie esta mensagem] [ ]



Octógono

 

Estou no trabalho. Um amigo me chama pelo MSN e pede pra eu fazer um texto colaborativo para o seu TCC. O tema? Amor.

Eu não consigo responder o que é amor pra mim. Nem o que faz, nem o que fez na minha vida. Não consigo me concentrar pra isso. Acho que a verdade é que estou ansiosa com meu celular que ainda não tocou, com meu Facebook sem notas vermelhas e minha caixa de e-mails vazia.

E bem agora, sob este pedido, me percebo apaixonada pelo movimento. Apaixonada por qualquer coisa ou ser humano que me faça bem ao ego e que dê movimento a minha vida. Alguém me disse, há algum tempo, que é importante amar a si mesmo e mostrar-se amado. Amar alguém é amar o movimento que este alguém provoca em minha vida e, portanto, amar a si mesmo.

Os desesperados de amor, os filhos do amor não correspondido que se projetam em lágrimas e nos parecem despidos de qualquer amor próprio estão, desesperadamente, apaixonados por si mesmos e loucos por se curar da dor que a falta do objeto amado – o motor – está lhes fazendo.

Estas pessoas foram expulsas de um trem em alta velocidade, levaram o tranco da inércia e continuaram correndo atrás de sua locomotiva porque o terreno às margens dos trilhos – no qual há silêncio e tempo para si mesmo – é muito perigoso. É preciso voltar para o trem onde há a sensação de vento nos cabelos e onde não se escuta nada do que é dito.

O amor é este trem desenfreado do qual não se sabe o destino mas se quer pertencer. É um incrível símbolo do auto amor e do destruir. É o contrário da devoção, pois só existe um amor – o amor próprio.

Eu diria a esse meu amigo do TCC e a seu gravador que amar é querer e não dar nada em troca.  É querer pra si e depois disso, querer em cinzas.

Eu diria a ele que todos os outros amores são reflexos do auto amor dentro de octógono de espelhos e, dependendo do ângulo, ele é totalmente diferente. Mas só há um amor essencial dentro da jaula de espelhos, o resto é o resto.

Eu também vou dizer a ele que não publique este texto. 

Tchau!

 



Escrito por Aline Prado às 01h40
[] [envie esta mensagem] [ ]



Sorvete Atômico

Minha cabeça está tomada por sorvetes. Nestes últimos dias a Internet, digo – a minha Internet – considerando toda minha chance de recepção de qualquer mensagem que inclui e-mails, facebook e Twitter, foi invadida por imagens sensacionais de sorvetes cremosos e esteticamente dispostos em casquinhas, nas mãos de pessoas sorridentes.

De mensagem em mensagem, o sorvete deve ter se instalado em algum lugar escondido da minha cabeça que eu não ousaria chamar de inconsciente, mas talvez, de ponto cego. O ponto cego, segundo as minhas próprias teorias, é o ponto que não fica em lugar nenhum. Não há consciente, inconsciente, ego, superego ou id que o abrigue ou classifique. Ele apenas está lá e não se sabe a morada, porque eu conheço e ao mesmo tempo não conheço seu conteúdo. Enfim, o tal do sorvete se encaixou por lá direitinho e eu só percebi quando olhei de canto de olho pra mesa ao lado da minha e vi um sorvete roxo e cremoso, tal qual os que havia visto nas fotos, em frente ao computador.Olhei novamente, porque as 11 da manhã de um dia acinzentado e com cara de frio em São Paulo não havia de ser um sorvete roxo e cremoso. E não era. Era um boneco gordo e pelancudo distribuído pelo McDonalds há algum tempo. Eu não sei de qual desenho ele faz parte, mas eu poderia chamá-lo de primo do Michelin – do lado roxo da família.

Aí eu fiquei pensando: esses spamers estão mesmo confiscando meu ponto cego. São como mensagens subliminares, mas não são! Porque todo tempo que eu dediquei olhando para os maravilhosos sorvetes eu sabia estar olhando para os maravilhosos sorvetes. Só que eles se estabilizaram na minha mente a ponto de serem projetados num boneco roxo e pelancudo, sem eu estar com a menor vontade de sorvete.

Se bem que, a cada vez que eu escrevo a palavra sorvete neste texto, minha vontade cresce 11%. E toda minha reflexão é: quão resistentes somos aos bombardeamentos diários de mensagens? Quantas coisas são armazenadas no ponto cego e se materializam em nossas mãos minutos depois? Há quem diga que a comunicação publicitária vem ficando cada vez menos efetiva do ponto de vista comercial, mas, se pensarmos que antigamente tínhamos a chance de receber, uma por uma, as propagandas e recebê-las de forma consciente e hoje – por não termos mais essa chance – somos obrigados a receber qualquer iniciativa publicitária de forma quase inconsciente.  E se pensarmos que em detrimento da qualidade, faz-se hoje a quantidade imperar. A quantidade e a freqüência. A verdade é que mensagens não produzidas e emitidas de forma subliminar se transformam em mensagens quase subliminares e, quando não são moralmente condenáveis, como tomar um sorvete (e aí vamos com mais 11%) tem uma resposta imediata.

Este tipo de comunicação nos transforma em uma espécie de Jeanni é um gênio que materializa tudo que está no ponto cego, rapidamente.Plim: sorvete. É como ter nove anos e pedir um suco para a sua mãe. A despeito de qualquer obstáculo que possamos ter, quando a coisa de coloca no feed de notícias do nosso ponto cego é quase batata que você vai ser o campeão olímpico da corrida de obstáculos para conseguir o que quer. Ou o que acabou querendo de tanto te mostrarem. Lembra do seu primo te mostrando o sanduíche dele e falando: olha, olha quer? Você quer? Eu tenho! É quase isso, só que você acha que não viu ninguém te mostrar nada.

Não vou entrar em detalhes sobre o poder aquisitivo de fazer ou não plim quando não se trata de um sorvete porque não foi a isso que me propus quando decidi relatar a história de um boneco roxo que virou sorvete. Já são 154% de vontade. Se me dão licença, eu vou tomar um sorvetinho.

Servidos?



Escrito por Aline Prado às 13h57
[] [envie esta mensagem] [ ]



Você ganhou inteiramente grátis um texto novo

 

A gente aprende a ter medo de olhar pro lado. Eu fico, mesmo, com medo de dar de cara com alguém que insiste em falar. Ou com alguém que não se gosta, aqueles que não se gosta tanto, que dói a gente ficar olhando. Aí eu enterro a cabeça no livro e dou uma olhadinha de vez em quando, daquelas de virar o pescoço rapidinho duas vezes. Sabe quanto tempo eu fico pensando em quando vou olhar? Não sei, mas muito tempo.


Eu fico com medo de atender o telefone da minha casa também. Às vezes é alguém que quer conversar e conversar mesmo. Alguém que espera saber do seu dia e você vai ter que gastar energia pra contar tudo o que você já sabe em detalhes, já que você estava lá. O engraçado é que eu até gosto quando toca o telefone. Sinal que as coisas não estão tão paradas assim. Qualquer interação humana me faz lembrar que eu sou capaz de qualquer interação humana e que outro ser humano gasta seu tempo e energia ligando pra mim. Mas se as pessoas estiverem vendendo coisas, essa energia e tempo também são gastos, mas aí o motivo não sou eu e aí eu fico triste de novo. O que é pior nessa interação toda é que, por algum motivo, eu prefiro as ligações de venda do que minhas ligações pessoais. Uma espécie de paz, a mesma paz de preencher formulários com dados que a gente sabe decor, me invade com a pessoa falando o texto decorado no manual do vendedor.


Qualquer um que esteja do meu lado me manda desligar o telefone. Principalmente, quando eu estou falando com a operadora de telemarketing as nove da manhã do sábado, deitada na cama. Mas eu não desligo. Falo todos os meus dados até o final da conversa que é quando eu digo: Não, obrigada, eu não quero o jornal. Desconfio que seja uma espécie de checagem: meu nome é esse, minha idade é essa, eu moro aqui, estado civil e etc. Uma sessão descarrego, na qual se reseta o sistema pra fazer o check list do momento e aí eu desligo mais em paz. Pronto agora sei que estou assim do jeito que meus dados disseram. Dependendo da informação, eu encho a boca pra falar e digo orgulhosa mesmo, tendo a esperança de que a operadora até sinta uma espécie de inveja.


No final das contas, alguma empresa paga pelo meus minutos de terapia. Eu não tenho que relembrar nada do meu dia e fazer esforço mental pra contar as partes chatas. Eu posso dizer o que quiser e ser o que quiser. São alguns minutos pro meu ego ficar muito feliz e eu me ver num filme no qual eu sou muito mais ocupada do que sou . Às vezes eu faço uma voz soberba e brinco de mais importante também. O irônico é pensar que o Telemarketing deixa que eu faça o texto que eu quiser pra me vender melhor. É como se olhar no espelho pelo telefone.


Telemarketing, eu vou estar agradecendo pela sua atenção.


Uma boa noite para o senhor.

 



Escrito por Aline Prado às 21h38
[] [envie esta mensagem] [ ]



O Mundo das Canetas e de Van Gogh

 Agora todos querem que você conte a sua história. O Facebook, o Twitter, o Starbucks... Todos te dão espaço para contar um dia interessante que você tenha vivido. Ok. Você entra no site, preenche uns dados, eles aumentam a captação de cadastro e aí você coloca uma musiquinha de fundo e pisa fundo no teclado. Ou não. Ou seu envolvimento é tão profundo quanto os 5 minutos que você gasta pra escrever sua história no intervalo do trabalho. Mas o que importa é que eles te dão a caneta na mão e, se prestarmos atenção no sucesso desses hotsites, você a usa.

Aí o que eu fico pensando é o seguinte: quem, diabos, lê sua história? Eles descobriram que fazer o papel da amiga feia que só escuta e não fala, ou do amigo que queria ser mais do que isso, ou quem sabe, o papel de todas as mães, de ser um enorme ouvido, virou moda no mundo virtual das corporações. O problema é: mesmo que sua mãe deixe você falar enquanto está cortando a cebola, não significa que ela esteja realmente lhe ouvindo. Então, enquanto você mergulha no seu dia mais emocionante e capricha na descrição na página do Facebook, você, provavelmente – egocêntrico que é, já se imagina sendo lido. Not!

Bem vindo a era das canetas! Um tempo em que todos nós temos uma caneta na mão, mas, ninguém tem um caderno. Sabe aquela história de que a comunicação exige um emissor e um receptor? Pois é, os milhões de canais de mídias sociais e, agora, as corporações que se entenderam espaços de mídia para seus consumidores, nos oferecem a chance de ser um emissor, mas, não a garantia de que teremos receptores. Aliás, os receptores andam com costumes vangoguianos e não escutam mais nada.

Internet 2.0 e blá blá... todo mundo aprendeu que pode ser o jornalista da vez e esquecemos de dizer que se todo mundo pode ser o jornalista, ninguém quer ser o leitor! Ainda que as duas coisas não sejam auto-excludentes. Talvez o Twitter seja um ícone dessa mecânica: você tem a chance de escrever e ser publicado em um segundo, mas, seu caderno tem o espaço de uma linha. Seu feed do twitter está lotado de mensagens que você não vai ler, mas, todos os dias você publica alguma coisa que lhe faça parecer alguém legal e que lhe massageie, rapidamente, o ego. Dos seus 100, 1000, 3000 seguidores, alguém vai lhe mandar uma resposta com um smile. O vermelhinho do aviso de que alguém falou com você faz seu dia ficar mais alegre, já que você se sente capaz de alguma interação humana.

Talvez as empresas tenham percebido que nem sempre são o macho alfa da parada e que quanto mais tempo tiverem de contato com você, melhor! Aí elas deixam você lá, falando. E você fala, porque, esse é o jeito novo de se olhar no espelho. Mas você nunca dorme com o amigo feio.

No mundo onde todo mundo ganha uma caneta, como vamos fazer para alguém brincar de receptor sem ganhar nada em troca? E se todo mundo tem uma caneta, o que vai dizer se nunca foi receptor de nada? Está chegando o tempo do silêncio. O tempo no qual todo mundo sabe que não há mais ouvidos e em que todas as canetas nunca receberam tinta.

Todo mundo quietinho! Bom dia a todos vocês. 



Escrito por Aline Prado às 11h08
[] [envie esta mensagem] [ ]



Google: o herói que fugiu

 

Devido ao comportamento radical da empresa norte-americana Google e às grandes probabilidades de mudanças quanto à censura na China, a minha opinião é, terminantemente, contrária à saída da empresa da China.

Cerne do desenvolvimento econômico, a China já tem o terceiro PIB do mundo, ultrapassando a França e, mais recentemente, a Alemanha. É provável, portanto, que seus desenvolvimentos culturais e políticos, mesmo que a passos lentos, acompanhem a desenvoltura econômica que o país asiático vem demonstrando. Segundo Charles Zang, CEO do enorme portal de internet chinês Sohu, é óbvio que o país deseje aproveitar seu potencial financeiro para projetar seus ideais e valores através de veículos de mídia e cultura. Para o CEO, no entanto, é preciso que as intervenções estatais e a censura deixem de ser executadas, dando credibilidade aos jornais e canais televisivos chineses.

A visão de Charles Zang demonstra que, mais cedo ou mais tarde, o país terá de abandonar seus métodos de controle da população no que se refere à censura, se quiser ser uma potência reconhecida em outras esferas que não a econômica. Essa visão é confirmada por Tim Berners-Lee, precursor da Internet, o qual acredita que a China precisa de tempo para se acostumar com uma sociedade bem informada e que esse movimento se dará aos poucos. Parece óbvio, portanto, entender que assim como a abertura comercial teve de ser feita, os cadeados que ainda suspendem informações na Internet chinesa terão de cair e será necessário que as empresas que têm interesses em partilhar o mercado online de milhões de chineses estejam presentes nesse momento.

Pesquisas realizadas entre quase mil cientistas chineses demonstraram que o Google lhes serve de ferramenta de fundamental importância, exatamente como serve a outros tantos chineses. A versão “.com” do portal continuará disponível a essas pessoas órfãs do “Google.CN”, mas, levando-se em conta a singularidade do idioma Mandarim – continuará a base de dados para este público tão específica e primordial? Dificilmente. Enquanto o gigante Google se retira da China, por não aceitar as privações exigidas pelo governo – ainda que em detrimento de seu principal objetivo de levar a informação a seres humanos em todos os lugares do mundo, as iniciativas públicas e privadas estão atentas à esta imensa lacuna de mercado deixada para trás.

Não foi à toa que o governo de Pequim não cedeu às pressões da empresa quanto a aceitar que as pesquisas no portal fossem realizadas sem os filtros exigidos por lei: sendo o Google o principal portal de pesquisa do mundo, é de se estranhar um comportamento tão radical a ponto de abandonar um promissor mercado de 1,5 bilhões de pessoas, caso suas exigências não fossem ouvidas.

Especulações quanto ao “real motivo de saída da empresa” circularam em blogs chineses que chegaram a ironizar a decisão do Google sob o mote do provérbio chinês “É melhor viver a estar morto”. Opiniões de que a empresa não estaria sendo bem sucedida no país também rodearam os textos, cujos conteúdos deixaram claro a decepção do cidadão chinês em relação à empresa.

Entendia-se na China, e segundo às próprias declarações do presidente do Google, que a versão chinesa do portal tinha surgido de forma, quase vanguardista, acreditando que levar maior informação às pessoas, apesar do incomodo das censuras, seria mais benéfico do que não levar informação alguma. Num mundo onde as imagens das corporações são tratadas como pedras preciosas, imaginar uma possível volta do Google à China, quando as censuras online forem suspensas, fica um pouco impalatável. Ainda mais, quando somamos às essas especulações um sentimento de abandono por parte do povo chinês em relação aos avanços democráticos do país.

Além de qualquer ressalva que se faça quanto à filosofia da empresa de não ceder à censura e respeitar os direitos de informação, caberia ao Google, neste momento, aguardar às mudanças da liberdade de expressão do país – que provavelmente ocorrerão de forma natural - para que a empresa garantisse seu espaço de mercado e ainda faturasse uma imagem heróica e de cumplicidade junto ao cidadão chinês. 

 



Escrito por Aline Prado às 22h10
[] [envie esta mensagem] [ ]



O que você vê?



Escrito por Aline Prado às 15h20
[] [envie esta mensagem] [ ]



Os Lindos Histéricos


Ela quer viver sozinha, sem a sua companhia, e você ainda quer essa mulher. Estou esperando chegar meu carro de fazer viagens para conseguir escrever um monte de coisas que eu vou esquecer assim que as deixar no teclado.

Sobre querer, as palavras se perdem em querer alguma coisa esquisita que a gente deixa de ouvir no meio do caminho. Eu percebi o quanto posso me repetir num só pensamento cheio de coisas bonitas que aí eu descubro vazio. Na verdade, essa história de deixar meu inconsciente sair dizendo me prega peças: no fundo eu acho que ele tem um monte de coisa bonita guardada pra eu dizer todo dia. E aí eu mesma, em pieguice, digo!

Pobre espírito esse meu que acredita no que eu mesma digo. Mas tão tola sou nessas palavras que elas vão saindo e me deixam limpinha de mim e da vontade de todo mundo de fazer as grandes obras grandes. Você sabe disso. Você guarda isso. Aquela vontade de ser maior que a dor dos outros pra ser bonito . Pura histeria, né? É.

Não faz assim, me diz o seu nome...

E o livro? Duas resenhas sobre dois capítulos que ainda nem estiveram embaixo dos meus olhos nenhuma vezinha. Eu quero água, quero me encher de água pra ficar fresca de barriga para cima. Vou deitar, com uma blusa azul de bolinhas brancas, e esperar a luz do sol que entra pela minha janela ficar bem em cima do meu rosto, esquentando só o meu nariz e deixando meus olhos castanhos bem verdes. Não quero que tenha som, não quero que tenha nada. Assim, de câmera lenta vou segurar algo sobre minha cabeça – feito móbile de criança e esperar o dia passar. Depois alguém vai editar meu riso e deixar só um olho grande na tela. A música tem de ser seca, de choro. Eu quero ficar assim fresca.

Quero ficar azul-americano e chorar de mim mesma. Eu quero é ver bonito no meu azul e tudo isso em mais uma de minhas tardes tão repletas de mim, com nada dentro. Eu sou filha da histeria para o mundo inteiro e não quero saber do excêntrico que vão me chamar. Eu quero chamar.

 



Escrito por Aline Prado às 16h39
[] [envie esta mensagem] [ ]



Clarice

Tomo a caneta. O esforço faz de mim o ignorado. Sobro. Rejeito cada idéia e transpareço. Senti que tinha de ser gente grande. Partir do desejo, do agridoce do desejo. De meu ódio. De tudo o que sei pela ponta de meus dedos e não controlo ouso despedir-me. Não. Trançar. Seguir de pé minha face ainda crua – minha cara Ulisses.

Encontrei um lado externo que era meu. Conhece? Respira. Tão meu quanto meus dedos e vontades. Pai. Meu eu latente de mim. Diz! Como e por onde lhe coube tanta vontade de conduzir com tuas mãos, com tua pena o alheio. Como surge do teu cuspe – o pão, as datas e o trabalho. Surge Ulisses sem ponto nem trégua. Sem hiato. Meu hiato de morte e de silêncio. Aquilo que se sente frio.

Recosto minha força no que sei. Em meu rezar descontrolado – me penduro num pêndulo gigante que fica a vadiar meu corpo. Leva e traz um vento frio de não saber por onde. Te traz junto. Me revolta e consola. Instiga. Luto para ser parte daqueles que venceram um beijo. Apolo. Recorda minha face isolada, sussurra teu verso mais inquieto, me leva pela mão.

Consigo. Começo antes do começo que já não sei de onde sopro meu anseio. Sopro, sem que em algum minuto tenha começado – porque o início vem no fim de tudo que não se contou.

Hei de esquecer o amor. Não! Lembro, lembro todos do amor. Mas digo sem lhe avisar que não... agora não quero ser de suas histórias. Digo sim sobre o construir. Me enrolo dentro de mim e – vê! Mergulho – descrevo meu pêndulo e desatino em outro alguém que é fruto de meu pai.

Tenho de fazer de conta. Brinco com pérolas e teço segundos em fios de ouro para esquecer da morte – que o tempo passa acelerado e meu minuto de viver já flutua sobre mim – caindo no chão feito palhaço. Desaparece. Antes de tentar pegá-los, me enfureço e grito! Grito a libertar o que houver de bicho em mim. Cicatriza, deixa as garras por dentro.

Estou agora do outro lado da balança. Cai Apolo. Sobe em minhas pernas e calcula meu sorriso. Poder de lábio vermelho e em forma de corpo.

Calo – não importa nada que se faça agora. Porque sei que tudo tão perfeito e encaixado não se move só por mim. Não por mim. Vê – Rolo o tempo a rever minhas crenças, te obedeço. Sei agora eu. Que preciso exigir coragem em alto e bom som. Preciso ainda pedir por luz e garantir o bom fim. E agora que? A mim? Rogo. Testo. Adio. A mim! Que vi – já não paira nada por aqui.

Da apatia encontro meu consolo em ignorar o mundo. Não! Não quero rédeas nem traços corretos. Quero ser do incerto o infinito todo. Quero não saber onde acaba e assim ter o mundo na barriga. Cala-te mundo, que a imensidão eu tenho assim, sem saber de nada. Foge. Lembra do frio e dos teus braços que te cobriam. – Que vão te cobrir em qualquer dia sem comida, no escuro. Na neve. Desde a caverna. Leva consigo a água das lágrimas e teu corpo companheiro. A solidão aquece e desmembra teu chão. Transporta seu caminho quase em outro corpo e mão que te assegure.

Volta ao infinito. E antes? E antes, Pai? Ah! Pois não sabe de tudo. Está sob teu tapete o antes do começo. Branco ou Preto? Posso sumir estrela a estrela até esquecer meu nome e quem sou, chego ao Branco ou Preto que me conta o nada  e demoro a voltar. Demoro a ganhar as cores. É nessa hora que nada existe. Nada precisaria existir ou ser. Tudo está quieto. Tão quieto quanto meus pés procurando paradeiro molhado – sentindo o liso e reto do chão.

Quis me tocar com Deus. Quis abraçar o grande mundo que é Deus e fazer parte dele como um homem pode fazer parte de mim. Estar no meio da massa molhada do mundo e retocar meu pranto. Goze. E ali, embriagada por Deus – grávida dos dois lados possíveis. Grávida do querer de meus dedos e do que me sussurrou Apolo e meu Pai, mergulhei minha caneta em minha maior conquista.

Venci. Venceu o já e o agora e foi a parte em segredo de todo ser humano. Foi e viu o silencio que se descobre quieto em cada um. O tato, o impalatável da angústia – modestamente nua e fluida.

Uma predestinação mista de seu próprio querer abençoado. Ser menos destino do que a paz do tranqüilo mas ardente ainda que dúbio e ridículo.

Acorda. Mergulha. Sem porquê – agora: escuta! Ela foi. Ela ainda está. 



Escrito por Aline Prado às 05h01
[] [envie esta mensagem] [ ]



Maternal

Quer saber? Eu não gosto de você. Eu ando pensando isso mais do que deveria. Pois bem – eu sempre quis que você soubesse cuidar de você, talvez até, eu admito, eu não soubesse o que era o melhor pra você. Mas você me parecia desejar todo o quadro que eu imaginava em seu redor e pior será meu remorso, aliás aí então ele haverá, se eu perceber que todo este desejar não passava de uma outra ponte a mim que lhe pareceu propícia mas que, de fato, você não conseguiu atravessar.

O problema é que você entregava tudo em minhas mãos e então eu tentava dirigir o meu caminho à guisa do seu, tão oposto. Não haveria por onde surgir pior força do que a que havia entre nós. Dúbia, latente, explosiva por fim.

Eu queria ter mais coragem. Mais coragem pra fazer algo grande contra mim. Algo suficiente pra lhe fazer perceber que nada do meu sofrimento era palco. Algo que lhe fizesse sentir de uma vez só todo o ruim que eu senti em tanto tempo e que você, tão Cristo e grandiosa, tão mártir, espezinhou com pequenas botas arredondadas e horríveis.

Eu queria era morrer dez mil vezes pra te fazer doer dez mil vezes todo choro que eu molhei em mim. E te fazer ver, soprado, ao lado do meu corpo frio a mais normal e cool style vida em forma de uma menina, uma mulher, parecida comigo e livre! Era ver uma mulher livre para ser filha de uma outra mulher que se fez assim primeiro. Pois eu aprendi que preciso ser mulher e te esculpir mulher todo dia.

Pesa tanto em cada ombro o teu cochilo atrapalhado de ser meio mãe e meio filha e, ainda assim, meio vó do tempo, que me fui vendo má e trapaceira sem nem ter saído de meus pompons e chocalhos.

Cospe, mãe! Cospe a vida que lhe deram em ousadia e coragem de me tirar de teu centro. Enquanto couber o nome de teu seio em minhas pernas e corpo eu mereço um pouco de tua paz e acalento que me possam ser, por fim, maternais. 



Escrito por Aline Prado às 05h23
[] [envie esta mensagem] [ ]




[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]